Maio Furta-Cor: Precisamos Falar sobre Saúde Mental Materna
- Dra. Marcela Hammoud

- 22 de mai.
- 5 min de leitura

A maternidade costuma ser associada ao amor, à realização e ao cuidado. Mas, para muitas mulheres, esse período também pode ser atravessado por medo, cansaço extremo, culpa, ansiedade, tristeza, solidão e sensação de não dar conta.
É justamente para ampliar esse olhar que existe o Maio Furta-Cor, um movimento dedicado à conscientização sobre a saúde mental materna. A campanha propõe uma reflexão necessária: mães também adoecem, também precisam de cuidado e não devem enfrentar o sofrimento emocional em silêncio.
A cor furta-cor, que muda conforme a luz, representa bem a complexidade da maternidade. Em uma mesma mulher podem coexistir amor e exaustão, vínculo e angústia, alegria e medo, desejo de cuidar e necessidade profunda de ser cuidada. Reconhecer essa ambivalência não diminui a maternidade. Pelo contrário: torna o cuidado mais humano, real e possível.
O que é o Maio Furta-Cor?
O Maio Furta-Cor é um movimento social e comunitário voltado à promoção da saúde mental materna. Idealizado em 2019 por duas mães, uma psiquiatra e uma psicóloga, o movimento foi lançado nacionalmente em 2021. O Maio Furta-Cor atua com ações de conscientização, produção de informação baseada em evidências e estímulo à criação de políticas públicas voltadas às mães.
A escolha do mês de maio tem relação com o Dia das Mães, mas a proposta vai além das homenagens. O objetivo é lembrar que celebrar a maternidade também significa olhar para as condições emocionais, sociais e familiares em que essa mulher está vivendo.
Falar sobre saúde mental materna é falar sobre gestação, parto, puerpério, amamentação, privação de sono, rede de apoio, retorno ao trabalho, mudanças no corpo, alterações hormonais, sobrecarga emocional e também sobre transtornos como depressão, ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno bipolar e psicose pós-parto.
Por que a saúde mental materna merece atenção?
A saúde mental materna é um pilar importante para o bem-estar da mulher, do bebê e de toda a família. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 10% das gestantes e 13% das mulheres que acabaram de dar à luz vivenciam algum transtorno mental, principalmente depressão. Em países em desenvolvimento, esses números podem ser ainda maiores.
Esses dados mostram que o sofrimento psíquico na maternidade não é raro, não é “frescura” e não deve ser tratado como falta de força de vontade. Muitas mulheres passam por sintomas importantes e, ainda assim, demoram a procurar ajuda por medo de julgamento, culpa ou por acreditarem que “toda mãe se sente assim”.
É verdade que o puerpério envolve adaptações intensas. No entanto, quando a tristeza, a ansiedade, a irritabilidade, a exaustão ou os pensamentos negativos se tornam persistentes e começam a comprometer a rotina, o vínculo, o sono, a alimentação ou a capacidade de funcionar, é necessário avaliar com cuidado.
Tristeza, ansiedade e exaustão: quando deixam de ser “normal”?
Sentir-se cansada no pós-parto é comum. Ter dúvidas, inseguranças e momentos de choro também pode acontecer. Mas alguns sinais merecem atenção, principalmente quando são intensos, persistentes ou causam sofrimento significativo.
Entre os sinais de alerta estão tristeza profunda, sensação constante de culpa, perda de interesse por atividades antes prazerosas, irritabilidade intensa, crises de ansiedade, medo excessivo de algo acontecer com o bebê, dificuldade importante para dormir mesmo quando há oportunidade, sensação de incapacidade, pensamentos de morte ou pensamentos de machucar a si mesma ou o bebê.
O Ministério da Saúde descreve a depressão pós-parto como um quadro que pode envolver melancolia intensa, desmotivação profunda, tristeza persistente, desesperança, cansaço extremo, alterações de sono, ansiedade, perda de interesse e, em situações mais graves, pensamentos de morte ou de prejudicar o bebê.
Esses sintomas não devem ser ignorados. Quando aparecem, o cuidado especializado pode fazer diferença no diagnóstico, no tratamento e na segurança da mãe e do bebê.
O cuidado não deve começar apenas quando a mãe chega ao limite
Um dos principais pontos defendidos pelo Maio Furta-Cor é a importância da prevenção e da identificação precoce do sofrimento emocional. A saúde mental da mãe precisa ser observada durante a gestação, no pós-parto e ao longo dos primeiros anos da maternidade.
A Organização Pan-Americana da Saúde, vinculada à OMS, reforça que o cuidado pós-natal deve incluir triagem para depressão e ansiedade materna, além de serviços de referência e manejo quando necessário.
Na prática, isso significa que perguntas sobre sono, humor, medo, pensamentos repetitivos, irritabilidade, rede de apoio e sensação de sobrecarga deveriam fazer parte do acompanhamento materno. Muitas vezes, a mãe comparece a diversas consultas para cuidar do bebê, mas quase ninguém pergunta verdadeiramente como ela está.
Esse silêncio pode atrasar o diagnóstico e aumentar o sofrimento.
Saúde mental materna também é responsabilidade da rede de apoio
Cuidar da saúde mental materna não é uma tarefa exclusiva da mãe. A rede de apoio tem papel essencial.
Familiares, parceiros, amigos e profissionais de saúde precisam estar atentos não apenas às demandas práticas, mas também aos sinais emocionais. Ajudar uma mãe não é apenas visitar o bebê. É oferecer presença, escuta, descanso, acolhimento e ajuda concreta.
Frases como “isso é normal”, “toda mãe passa por isso” ou “você precisa ser forte” podem aumentar a culpa e dificultar a busca por ajuda. Em vez disso, é mais cuidadoso perguntar: “Como você está se sentindo de verdade?”, “O que posso fazer por você hoje?” ou “Você gostaria que eu te acompanhasse em uma consulta?”.
A maternidade não deveria ser vivida como uma prova de resistência. Quanto mais acolhimento e suporte existem ao redor da mulher, maiores são as chances de identificação precoce do sofrimento e de recuperação adequada.
O papel da psiquiatria no cuidado materno
Ainda existe muito receio em procurar um psiquiatra durante a gestação ou no pós-parto. Algumas mulheres têm medo de serem julgadas, medicadas imediatamente ou impedidas de amamentar. Mas o papel da psiquiatria perinatal é justamente avaliar cada caso com responsabilidade, considerando sintomas, história clínica, momento de vida, riscos, benefícios e possibilidades de tratamento.
Nem todo sofrimento exige medicação. Em muitos casos, a psicoterapia, os ajustes de rotina, a reorganização da rede de apoio e o acompanhamento próximo são fundamentais. Em outros, o tratamento medicamentoso pode ser necessário e seguro quando bem indicado e acompanhado.
O mais importante é que a mulher não precise decidir sozinha, sem orientação profissional, entre “aguentar” e “desistir”. Existe tratamento. Existe cuidado. Existe caminho.
Maio Furta-Cor: um convite para olhar para quem cuida
O Maio Furta-Cor nos lembra que cuidar de uma mãe é também cuidar de uma família. É proteger vínculos, favorecer o desenvolvimento emocional do bebê e reduzir riscos que muitas vezes permanecem invisíveis.
Falar sobre saúde mental materna não é dramatizar a maternidade. É reconhecer que ela envolve dimensões físicas, emocionais, sociais e psíquicas profundas. É entender que uma mulher pode amar seu filho e, ainda assim, precisar de ajuda. Pode ser uma boa mãe e estar deprimida. Pode desejar cuidar e, ao mesmo tempo, estar esgotada. Pode sorrir em público e sofrer em silêncio.
Neste Maio Furta-Cor, o convite é simples e urgente: olhe para a mãe com mais atenção. Pergunte como ela está. Ofereça apoio sem julgamento. Incentive a busca por ajuda profissional quando houver sofrimento persistente.
Pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É uma forma de cuidado.
E nenhuma mãe deveria precisar atravessar esse processo sozinha.
Conclusão
Se você está gestante, no puerpério ou vivendo sofrimento emocional relacionado à maternidade, procure avaliação especializada. O cuidado em saúde mental materna pode ajudar a compreender o que está acontecendo e indicar o melhor caminho para cada fase.
Dra. Marcela Hammoud
Médica Psiquiatra e Terapeuta Comportamental
Saúde mental da mulher | Gestação | Puerpério | Ansiedade | Depressão
Atendimento presencial em São José do Rio Preto e online.




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