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Agosto Dourado: Amamentar também exige cuidar da saúde mental da mãe

  • Foto do escritor: Dra. Marcela Hammoud
    Dra. Marcela Hammoud
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura
Agosto dourado mãe abraça bebê

O Agosto Dourado é uma campanha dedicada à promoção do aleitamento materno. A cor dourada simboliza o padrão ouro do leite materno, reconhecido por seus benefícios nutricionais, imunológicos e afetivos para o bebê.


Mas, quando falamos sobre amamentação, é importante ampliar o olhar.


Amamentar não depende apenas de vontade, informação ou orientação técnica. A saúde mental da mulher também interfere profundamente nesse processo.


Ansiedade, depressão, exaustão, privação de sono, dor, culpa e falta de rede de apoio podem tornar a amamentação mais difícil, mais dolorosa e, em alguns casos, emocionalmente insustentável.


Por isso, falar sobre Agosto Dourado também é falar sobre o cuidado com quem amamenta.


Amamentação não deve ser tratada como obrigação silenciosa


A amamentação pode ser uma experiência de vínculo, proteção e conexão. Para muitas mulheres, é um momento desejado e significativo. Mas, para outras, pode vir acompanhada de angústia, insegurança, dor, medo de não produzir leite suficiente, sensação de fracasso ou pressão externa.


Quando a mulher está emocionalmente fragilizada, esse processo pode se tornar ainda mais difícil.


A depressão pós-parto, a ansiedade e o esgotamento materno podem interferir na confiança da mulher, na disposição para manter a amamentação, na percepção de vínculo com o bebê e na forma como ela lida com as dificuldades naturais dessa fase.


Isso não significa que toda mulher com sofrimento emocional não consiga amamentar. Significa que ela precisa ser vista de forma integral.


Não basta perguntar se o bebê está mamando. Também é preciso perguntar como essa mãe está.


Saúde mental materna e amamentação caminham juntas


O puerpério é um período de intensas mudanças hormonais, físicas, emocionais e sociais. A mulher está se recuperando do parto, adaptando-se ao bebê, dormindo menos, reorganizando sua identidade e, muitas vezes, tentando corresponder a expectativas muito altas sobre maternidade.


Nesse contexto, sintomas como tristeza persistente, irritabilidade, choro frequente, medo excessivo, pensamentos acelerados, culpa intensa, crises de ansiedade ou sensação de incapacidade não devem ser normalizados.


A amamentação pode ser afetada por esse sofrimento. Uma mãe ansiosa pode ficar tomada pelo medo de não estar fazendo certo. Uma mãe deprimida pode sentir menos energia, menos confiança e mais dificuldade de sustentar a rotina. Uma mãe exausta pode se sentir culpada por desejar descansar.


E a culpa, quando ocupa espaço demais, também adoece.


Por isso, o cuidado com a amamentação não deve ser separado do cuidado com a saúde mental da mulher.


O cuidado não é apenas com o bebê


Historicamente, no pós-parto, grande parte da atenção se volta para o bebê: peso, sono, mamadas, vacinas, desenvolvimento e crescimento. Tudo isso é essencial.


Mas a mãe também precisa ser acompanhada.


Ela precisa dormir, comer, ser acolhida, receber ajuda prática, ter espaço para falar do que sente e ser avaliada quando apresenta sinais de sofrimento psíquico.

Quando uma mulher diz que está no limite, que não consegue dormir, que chora todos os dias, que sente medo constante ou que não se reconhece, isso não deve ser respondido apenas com frases como “é assim mesmo” ou “toda mãe passa por isso”.


Alguns desconfortos fazem parte da adaptação. Sofrimento intenso e persistente, não.


Medicação na amamentação: nem sempre é preciso escolher entre tratar e amamentar


Muitas mulheres deixam de buscar ajuda por medo de que qualquer tratamento psiquiátrico seja incompatível com a amamentação. Esse medo é compreensível, mas nem sempre corresponde à realidade.


Existem medicações que podem ser utilizadas durante a gestação e a amamentação, quando bem indicadas e acompanhadas por um profissional. A decisão deve ser individualizada, considerando o quadro clínico da mulher, a gravidade dos sintomas, a história prévia, os riscos da doença não tratada, o tipo de medicação, a dose, a idade do bebê e o padrão de amamentação.


Isso não significa que toda mulher precisará de medicação. Em alguns casos, psicoterapia, reorganização da rotina, melhora da rede de apoio e acompanhamento próximo podem ser suficientes. Em outros, o tratamento medicamentoso pode ser necessário para que essa mãe fique melhor, mais segura e mais capaz de viver a maternidade com menos sofrimento.


O ponto central é: sofrimento psíquico não deve ser ignorado por medo do tratamento.


Mãe medicada com responsabilidade não é uma mãe menos cuidadosa. Muitas vezes, é uma mãe sendo cuidada para conseguir cuidar.

 

Amamentar não pode significar abandonar a mulher


O incentivo à amamentação é importante, mas ele precisa ser feito com responsabilidade e acolhimento.


Quando a orientação se transforma em cobrança, a mãe pode se sentir ainda mais sozinha. Quando a amamentação é colocada como prova de amor, qualquer dificuldade pode virar culpa. Quando só o bebê é observado, o sofrimento da mulher pode passar despercebido.


Uma abordagem mais humana entende que amamentar envolve corpo, mente, vínculo, contexto, rede de apoio e saúde emocional.


Cuidar da amamentação é também cuidar da dor, do sono, da ansiedade, da tristeza, da pressão externa, da solidão e do medo de não dar conta.


Quando procurar ajuda?

É importante procurar avaliação profissional quando a mulher apresenta tristeza persistente, ansiedade intensa, irritabilidade frequente, crises de choro, culpa excessiva, medo constante, insônia mesmo quando há oportunidade de dormir, exaustão extrema, pensamentos negativos recorrentes ou dificuldade de se vincular ao bebê.


Também é necessário buscar ajuda com urgência se houver pensamentos de morte, sensação de que a vida perdeu o sentido ou pensamentos de machucar a si mesma ou o bebê.


Esses sinais não devem ser escondidos por vergonha. Eles precisam ser acolhidos e tratados.


Agosto Dourado também é sobre acolher a mãe


O Agosto Dourado nos lembra da importância da amamentação. Mas também deve nos lembrar que nenhuma mãe amamenta apenas com o corpo.


Ela amamenta com sua história, seu sono, seus medos, sua rede de apoio, sua saúde mental e suas condições reais de vida.


Por isso, incentivar o aleitamento materno também deve incluir uma pergunta simples e essencial:


Como está essa mãe?


Quando a mulher é cuidada, escutada e tratada quando necessário, ela tem mais condições de atravessar o puerpério com segurança, vínculo e menos sofrimento.

Amamentar pode ser importante. Mas a saúde mental da mãe também é.


E cuidar dela não é um detalhe. É parte do cuidado com o bebê, com a família e com a maternidade possível.

 

Dra. Marcela Hammoud

Médica Psiquiatra e Terapeuta Comportamental

Saúde mental da mulher | Gestação | Puerpério | Ansiedade | Depressão

Atendimento presencial em São José do Rio Preto e online.

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