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Outubro Rosa e saúde mental: os impactos emocionais do câncer de mama

Foto do escritor: Dra. Marcela Hammoud
Dra. Marcela Hammoud
1 de out.
5 min de leitura

Mulher em tratamento contra o câncer de mama, cercada por tons de rosa e dourado, simbolizando acolhimento, esperança e cuidado com a saúde mental no Outubro Rosa.

Outubro Rosa: por que o cuidado com a saúde mental também faz parte do tratamento do câncer de mama?


Quando falamos em Outubro Rosa, é natural pensar primeiro na prevenção, no diagnóstico precoce e no tratamento do câncer de mama. Mas existe uma dimensão dessa experiência que também precisa receber atenção: a saúde mental da mulher que atravessa o diagnóstico e o tratamento da doença.


O câncer de mama é o câncer mais incidente entre mulheres no mundo, desconsiderando os tumores de pele não melanoma em algumas estatísticas. Ao mesmo tempo em que os avanços no diagnóstico e no tratamento aumentaram as possibilidades de controle e cura da doença, receber esse diagnóstico continua sendo uma experiência potencialmente transformadora.


Isso acontece porque o câncer não começa e termina em um único momento.


Para muitas mulheres, existe uma sequência de acontecimentos: a descoberta de uma alteração, a espera pelos exames, a confirmação do diagnóstico, decisões sobre o tratamento, cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou hormonioterapia, mudanças no corpo, acompanhamento médico e, mesmo depois do tratamento, o receio de uma possível recorrência.


Por isso, cuidar da mulher com câncer de mama também significa olhar para aquilo que acontece emocionalmente durante todo esse percurso.


O diagnóstico pode funcionar como um estressor contínuo

Diferentemente de um evento difícil que acontece e termina, o câncer pode representar uma fonte prolongada de estresse.


O diagnóstico é apenas uma parte de um processo que pode incluir tratamentos prolongados, sintomas físicos, mudanças familiares e profissionais e incertezas em relação ao futuro.


Em algumas mulheres, o sofrimento emocional pode inclusive começar antes da confirmação da doença. Isso pode acontecer, por exemplo, durante investigações de alterações suspeitas ou em pessoas submetidas a acompanhamento intensivo por apresentarem maior risco familiar ou genético.


Assim, medo, ansiedade ou tristeza não aparecem necessariamente apenas depois que alguém recebe um diagnóstico. A espera e a incerteza também podem ser emocionalmente desgastantes.


A mama pode carregar significados que vão muito além de um órgão


Existe ainda uma particularidade importante no câncer de mama. Para muitas mulheres, as mamas estão relacionadas à feminilidade, sexualidade, maternidade, amamentação e percepção da própria imagem corporal. Isso não significa que todas atribuam os mesmos significados ao corpo, mas ajuda a compreender por que determinados tratamentos podem produzir repercussões emocionais profundas.


Cirurgias, mastectomia, perda de cabelo, cicatrizes e outras mudanças decorrentes do tratamento podem exigir uma adaptação à nova imagem corporal.


Pode existir um verdadeiro processo de luto pelas mudanças no corpo e pela vida anterior ao diagnóstico.


Nesse período podem surgir sentimentos como tristeza, raiva, medo, insegurança, isolamento ou dificuldades relacionadas à autoestima, à sexualidade e ao relacionamento conjugal.


Não se trata de vaidade. A maneira como uma pessoa reconhece e se relaciona com o próprio corpo também participa da construção de sua identidade.


Depressão, ansiedade e alterações do sono merecem atenção

O sofrimento emocional é frequente durante a experiência oncológica, mas isso não significa que todo sofrimento seja inevitável ou que precise simplesmente ser suportado.


Destacam-se a depressão, a ansiedade e insônia entre as manifestações que merecem atenção nas mulheres com câncer de mama.


A literatura científica também descreve maior ocorrência de sintomas psiquiátricos e dificuldades relacionadas ao sono, estresse, cognição e sexualidade entre pacientes e sobreviventes de câncer de mama.


Um dos pontos importantes é justamente não confundir o sofrimento esperado diante de uma situação difícil com a ideia de que qualquer intensidade de sofrimento seja “normal”.


Quando tristeza, ansiedade, medo ou alterações do sono passam a comprometer de maneira significativa o cotidiano, os relacionamentos, o autocuidado ou a capacidade de seguir o tratamento, é importante que sejam avaliados.


Existem outros fatores acontecendo ao mesmo tempo

A experiência emocional também não depende apenas do diagnóstico.

Dor, fadiga, sintomas relacionados à menopausa ou à hormonioterapia, alterações no sono, mudanças no trabalho e na dinâmica familiar podem aumentar a sobrecarga.


O suporte social também importa.

Ter pessoas disponíveis para ouvir, ajudar e acompanhar o tratamento pode fazer diferença na forma como uma mulher atravessa esse período. Em contrapartida, o baixo suporte social pode contribuir para maior vulnerabilidade emocional.


Existe ainda o medo de a doença voltar.

Mesmo depois de terminar determinadas etapas do tratamento, algumas mulheres permanecem em estado de alerta diante de exames, consultas ou qualquer nova sensação física. O medo da recorrência é reconhecido na literatura como uma questão psicossocial relevante ao longo da trajetória do câncer de mama.


Por isso, a conclusão de uma cirurgia, da quimioterapia ou da radioterapia não significa necessariamente o encerramento das repercussões emocionais da doença.


Saúde mental e tratamento oncológico precisam conversar

Algumas pacientes em tratamento do câncer de mama também precisam utilizar antidepressivos ou outros psicofármacos. Nesses casos, a escolha deve considerar o tratamento oncológico em andamento e possíveis interações medicamentosas.

Um exemplo relevante envolve o tamoxifeno.


O organismo utiliza a enzima CYP2D6 para convertê-la em um de seus metabólitos ativos, o endoxifeno. Alguns antidepressivos inibem essa enzima e, por isso, sua associação ao tamoxifeno exige avaliação médica cuidadosa.


A literatura sobre a importância clínica desta interação não é completamente uniforme. Uma revisão sistemática envolvendo estudos com quase 100 mil pacientes não encontrou evidência consistente de piores desfechos clínicos com o uso concomitante de antidepressivos e tamoxifeno. Ainda assim, a interação farmacológica permanece relevante para a escolha individualizada do tratamento.

Isso não significa que mulheres em uso de tamoxifeno não possam tratar depressão ou ansiedade.


Muito pelo contrário. Significa que o tratamento da saúde mental precisa ser pensado de maneira integrada, considerando medicamentos utilizados, sintomas presentes, características individuais e acompanhamento da equipe oncológica. A paciente não deve suspender ou substituir medicamentos por conta própria.


Qual é o papel do acompanhamento em saúde mental?

O cuidado em saúde mental pode acompanhar diferentes momentos da trajetória oncológica.


Isso inclui identificar precocemente sintomas de depressão, ansiedade e insônia; avaliar o impacto emocional das mudanças corporais; cuidar do sono e de outros sintomas que interferem na qualidade de vida; discutir de forma criteriosa o uso de medicamentos quando necessário; e trabalhar de maneira integrada com mastologia, oncologia, psicologia e demais profissionais envolvidos.

A colaboração entre profissionais de saúde mental e oncologia é apontada na literatura como parte importante de uma abordagem mais abrangente dessas pacientes.


E existe uma diferença importante entre reconhecer que uma mulher está atravessando algo extremamente difícil e presumir que, por isso, qualquer sofrimento deve ser tolerado sem ajuda.


Nem todo sofrimento emocional corresponde a um transtorno mental. Mas todo sofrimento merece ser escutado.


Outubro Rosa também pode ser sobre cuidar da mulher por inteiro

O câncer de mama acontece no corpo, mas sua experiência não fica restrita a ele.

Pode atingir a percepção de futuro, os relacionamentos, a sexualidade, o trabalho, o sono, a maternidade, a autoestima e a relação da mulher consigo mesma.


Por isso, durante o Outubro Rosa, além de reforçarmos a importância da prevenção, dos exames e do diagnóstico precoce, também precisamos ampliar a conversa.


Uma mulher em tratamento oncológico não é apenas uma mama sendo tratada.

Existe uma pessoa atravessando incertezas, mudanças e adaptações. Perguntar como ela está emocionalmente, oferecer espaço para falar sem julgamentos e reconhecer quando é necessário buscar ajuda especializada também são formas de cuidado.


Cuidar da saúde mental não é algo separado do tratamento do câncer.

É parte do cuidado com a mulher.


Dra. Marcela Hammoud

Médica Psiquiatra e Terapeuta Comportamental

Saúde mental da mulher | Gestação | Puerpério | Ansiedade | Depressão

Atendimento presencial em São José do Rio Preto e online


 
 
 

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