Setembro Amarelo: por que precisamos olhar para a saúde mental no pós-parto

O Setembro Amarelo nos convida a falar sobre prevenção, acolhimento e cuidado com a saúde mental. Quando esse tema se encontra com a maternidade, ele exige ainda mais sensibilidade.

O nascimento de um bebê costuma ser associado à felicidade, ao amor e à realização. Mas, para muitas mulheres, o pós-parto também pode ser um período de intenso sofrimento psíquico, marcado por privação de sono, alterações hormonais, medo, culpa, solidão, ansiedade, tristeza profunda e sensação de não dar conta.
Por isso, falar sobre saúde mental materna nesse período não é assustar mães. É proteger vidas.
O primeiro ano após o parto merece atenção
A saúde mental materna precisa ser acompanhada não apenas nos primeiros dias depois do nascimento do bebê, mas ao longo de todo o primeiro ano pós-parto.
Estudos científicos mostram que o risco de morte autoprovocada está entre as causas relevantes de mortalidade materna no período perinatal, que inclui a gestação e o primeiro ano após o parto. Uma pesquisa populacional publicada no BJOG, com dados da Holanda entre 2006 e 2020, observou que a maioria dos casos identificados ocorreu ao longo do primeiro ano pós-parto.
Esse dado não significa que toda mulher no puerpério está em risco. Também não deve ser usado para gerar medo. Ele nos mostra outra coisa: o sofrimento psíquico materno precisa ser levado a sério.
Muitas vezes, depois do parto, a atenção se volta quase completamente para o bebê. Peso, mamadas, sono, vacinas e desenvolvimento são acompanhados de perto. Tudo isso é essencial. Mas a mãe também precisa ser vista.
Ela também acabou de atravessar uma mudança física, emocional, hormonal, familiar e identitária profunda.
Nem todo sofrimento no puerpério é “normal”
É comum que o pós-parto traga cansaço, insegurança e oscilações emocionais. Mas existe uma diferença importante entre adaptação e sofrimento intenso.
Tristeza persistente, crises de ansiedade, irritabilidade extrema, sensação de vazio, culpa excessiva, desesperança, medo constante, dificuldade de dormir mesmo quando há oportunidade, perda de interesse, sensação de incapacidade e pensamentos de morte são sinais que precisam de atenção.
Frases como “toda mãe passa por isso”, “é só cansaço” ou “você precisa ser forte” podem fazer com que a mulher se cale ainda mais. E o silêncio, nesses casos, pode ser perigoso.
Quando uma mãe diz que não aguenta mais, que queria desaparecer, que sente que todos ficariam melhor sem ela ou que tem medo dos próprios pensamentos, isso não deve ser tratado como drama, exagero ou fraqueza. Deve ser tratado como sinal de alerta.
A maternidade pode esconder sofrimento
Uma das grandes dificuldades no cuidado com a saúde mental materna é que muitas mulheres seguem funcionando mesmo em sofrimento.
Elas cuidam do bebê, respondem mensagens, recebem visitas, fazem consultas, amamentam, organizam a rotina e, por fora, parecem estar dando conta. Por dentro, podem estar vivendo uma dor intensa e silenciosa.
O puerpério pode trazer uma pressão muito grande para que a mulher esteja feliz. Afinal, “o bebê nasceu com saúde”, “era um momento esperado”, “agora ela deveria estar realizada”.
Mas saúde mental não funciona por obrigação social. Uma mulher pode amar seu bebê e estar deprimida. Pode ser uma mãe cuidadosa e, ainda assim, estar em risco. Pode sorrir em uma foto e sentir que não consegue continuar.
Por isso, precisamos abandonar a ideia de que o sofrimento materno é incompatível com amor materno.
Escutar sem preconceito também é prevenção
A prevenção começa quando a mulher encontra espaço para falar sem ser julgada.
Escutar uma mãe em sofrimento não significa tentar resolver tudo com frases prontas. Também não significa minimizar, comparar ou corrigir o que ela sente.
Escutar é permitir que ela diga: “eu estou com medo”, “eu não estou bem”, “eu me sinto sozinha”, “eu não me reconheço”, “eu pensei que seria diferente”.
A família, o parceiro, os amigos e os profissionais de saúde precisam estar atentos. Perguntar “como você está?” pode ser importante, mas perguntar de forma real, com tempo e disposição para ouvir, é ainda mais.
Algumas perguntas podem abrir espaço para cuidado:
“Você tem conseguido descansar?”“Tem se sentido muito triste ou ansiosa?”“Você tem se sentido sozinha?”“Tem tido pensamentos que te assustam?”“Você sente que precisa de ajuda agora?”
Quando existe sofrimento intenso, a escuta precisa vir acompanhada de ação: acolher, não deixar a mulher sozinha, acionar rede de apoio e buscar atendimento profissional.
Apoio não é detalhe: é fator de proteção
Nenhuma mãe deveria atravessar o puerpério sozinha. O apoio nessa fase precisa ser concreto. Não basta elogiar o bebê, visitar a casa ou dizer que “vai passar”. Apoiar é ajudar com a rotina, permitir que a mãe descanse, dividir responsabilidades, cuidar da alimentação, acompanhar consultas, proteger a mulher de cobranças excessivas e perceber mudanças no comportamento.
O parceiro e a família têm papel essencial. Uma mulher exausta, isolada e emocionalmente fragilizada precisa de presença, não de julgamento.
Também é importante lembrar que rede de apoio não substitui tratamento quando há sinais de depressão, ansiedade intensa, transtorno bipolar, psicose pós-parto ou risco à própria vida. Nessas situações, o acompanhamento médico e psicológico é fundamental.
Tratamento pode salvar vidas
Buscar ajuda psiquiátrica no pós-parto não significa fracasso, fraqueza ou incapacidade de ser mãe. Significa cuidado.
O tratamento pode envolver psicoterapia, reorganização da rotina, fortalecimento da rede de apoio, avaliação do sono, acompanhamento próximo e, quando necessário, uso de medicação. Existem medicações que podem ser consideradas durante a amamentação, sempre com avaliação individualizada de riscos e benefícios.
O maior risco, muitas vezes, está em deixar o sofrimento sem cuidado. A mulher não precisa esperar chegar ao limite para procurar ajuda. Quanto mais cedo os sinais são reconhecidos, maiores são as chances de recuperação e proteção.
Setembro Amarelo também precisa olhar para as mães
No Setembro Amarelo, precisamos lembrar que a prevenção também passa pela saúde mental materna.
O primeiro ano após o parto é uma fase de grande vulnerabilidade para muitas mulheres. Não porque a maternidade seja, por si só, uma doença, mas porque ela pode reunir privação de sono, mudanças hormonais, dor, sobrecarga, isolamento, cobranças, histórico de transtornos mentais e falta de apoio.
Uma mãe em sofrimento precisa ser escutada, acolhida e tratada. Ela não precisa ouvir que deveria estar feliz. Ela precisa ouvir que sua dor importa.
Ela não precisa provar força. Ela precisa receber cuidado.
Cuidar da saúde mental no pós-parto é olhar para além do bebê e enxergar a mulher que também nasceu ali: uma mulher atravessando uma nova fase, com necessidades reais, emoções complexas e direito a suporte.
Pedir ajuda não diminui uma mãe. Pode ser justamente o gesto que protege sua vida.
Quando procurar ajuda com urgência?
Procure ajuda imediatamente se a mulher apresentar pensamentos de morte, desejo de desaparecer, sensação de que o bebê ou a família ficariam melhor sem ela, pensamentos de machucar a si mesma ou o bebê, alucinações, delírios, agitação intensa ou comportamento muito diferente do habitual.
Nessas situações, não deixe a mulher sozinha. Procure um serviço de emergência, pronto atendimento ou ligue para o SAMU 192.
O CVV também oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Falar sobre sofrimento psíquico grave exige cuidado, mas o cuidado não pode virar silêncio.
Dra. Marcela Hammoud
Médica Psiquiatra e Terapeuta Comportamental Saúde mental da mulher | Gestação | Puerpério | Ansiedade | Depressão Atendimento presencial em São José do Rio Preto e online.




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